sábado, 22 de novembro de 2008

O Terminal!

Vendo sua imagem desfocada naquele vidro sujo, sendo interrompida somente pelos vultos daqueles que, assim como ela, buscavam um destino, ou apenas chegavam de mais uma jornada. Mas o que ele via na verdade não era mais seu rosto que quando menina, um dia sorria pelo simples fato de saber que iria estar de novo junto dele. Aquela noite, aquele terminal representou o dia que ela talvez nunca estivesse preparada de verdade para que chegasse, ou então estivesse, só não aceitava a idéia de que ele realmente estivesse próximo de acontecer. Ninguém esperava, ninguém podia acreditar.
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Perdida, atônita em pensamentos vagos e lembranças remotas, seu olhar se perdia naquela noite nebulosa e o som dos primeiros pingos de chuva, lhe trazia de novo para a realidade. Quase que coincidentemente, seu ônibus chegava. Era hora de embarcar, e sua viagem era para um futuro de um passado que agora havia deixado de existir.
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Olhando pela janela, imagens destorcidas pelas gotas no vidro, seus olhos cansados se recusavam a se fechar. Ela não queria dormir, não queria sonhar e ter que acordar de um sonho bom. Talvez permanecer acordada lhe confortasse. Ou talvez apenas não quisesse esquecer. Ou só quisesse não lembrar. Tirou da mochila a foto, aquela foto de sua ultima viagem juntos. Um sorriso, tímido e escondido surgiu-lhe no canto da boca. Fechou os olhos... encostou a cabeça no banco... a lágrima correu. Adormeceu enfim.
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Ele embarca no metrô. Ela não pode ir. Seu coração agora dói. As portas se fecham. Ele está sorrindo. Um último sorriso. O metrô parte. Ela vira-se. Fecha os olhos.
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Acorda quando as luzes do ônibus se acendem, reconhece aquele lugar, relembra o que aquela cidade representava e tudo o q tinha deixado pra trás. Não quer mais adiar. Guarda a foto, agora amassada, na mochila. Tira seu casaco, apesar de não saber ao certo se sentia frio ou não. Desce. Olhando para os lados, olhando aqueles rostos desconhecidos, cansados, imagina se alguém também está ali pelo mesmo motivo ou se apenas estão chegando de mais uma viagem como outra qualquer. Ela preferia não ter que ter feito essa viagem. Estava acabando. Saiu.
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Caminhando sobre aquela neblina das últimas horas da madrugada, seus passos eram incertos, mas firmes, não era hora pra se fraquejar. Não podia. Não tinha que ser assim. Não queria e a havia prometido pra si mesma não chorar mais. O caminho era longo. Apressou-se. Já amanhecia e claridade trazia junto os primeiros sinais de realidade. O cheiro da grama lhe fez sentir saudade da infância, por um instante havia esquecido tudo. Parada ali na frente de um lugar que mais parecia um bosque, um parque, um casa de campo, sentiu que não estava só.
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Lembrava daquele caminho como se estivesse ali no dia anterior, guiava-se por uma força que não poderia e nem conseguiria explicar. Estava ali. Era ali. Ajoelhando-se na grama ainda molhada pelo orvalho, sem se preocupar se sujaria sua roupa, tirou a mochila, colocou em sua frente, abriu-a. Parou.
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Respirou em silêncio.
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Tirou dali aquela mesma foto, uma flor já seca pelo tempo, aquela mesma flor que haviam fotografado juntos na ultima viagem. Sentiu o sol. Sentiu paz. Deixou sobre a lápide fria. A tristeza agora era saudade, o medo agora era segurança, a lembrança lhe trouxe de volta o sorriso. Todos os momentos felizes, todas as horas juntos, todas as viagens, cada palavra, cada gesto, cada sorriso. Agora o sorriso era evidente em sua face, divertiu-se ao lembrar-se das brincadeiras, das piadas, das conversas jogadas fora. Percebeu então que tudo o que foi vivido, não foi em vão e que a intensidade de como foi vivido superava a distancia e a saudade.
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Levantou-se. Olhou por um breve instante para a flor. Ergue a cabeça, olhou em volta, pensou nele mais uma vez, respirou, sorriu. Virou-se e seguiu em direção a saída. O terminal a esperava. Pra onde iria? Ela não queria saber, não importava mais. Estava feliz e iria pra onde seus sonhos a guiassem. Partiu com passos sem pressa e sem direção. Estavam felizes. Separados e unidos pela eternidade.
Para Becky!

3 comentários:

Rebecca F. Barbosa disse...

VINIIIIIIIII!!
Vc quer me matar do coração!! Que coisa mais linda, mais tocante! Estou emocionada!!! Vc me conhece quase tão bem quanto eu mesma, ainda dói, sei que dói em vc tb!
Obrigada por tudo, eh tudo o q eu tenho a dizer, obrigada mais uma vez por me fazer sorrir, por me fazer sentir, que a distância, naum pode separar dois corações, dois coraçõs marcados por cumplicidade e amizade!
beijos
amo vc

Carla Stapani Ruas disse...

Viniiii te adicionei!!!me adiciona tambemm!!!êêêeêÊ!!!=P
Bjussss

|| tHiPrIeTo || disse...

Amigo Vinny, o texto é lindo .. emocionante narração .. tocante e sensível ..
detalhista do jeito q eu gosto e aprecio. Parabéns pelo fino toque !!
abração
Thi.